22 setembro 2022

O TEMPO DENTRO DE NÓS

 


                                                                     

O tempo não está feliz hoje. Ouvi seu choro na madrugada e, pela manhã, mantinha aquele olhar nublado, arremessando sobre quem o ousasse desafiar um vento frio que também provocava a queda de folhas e de flores , lançadas sobre as calçadas. Na natureza, no entanto, tudo tem beleza. Basta um agasalho e um olhar atento, quando ele está assim, para que colhamos, com o sentir, o esplendor daquelas folhas e flores espalhadas pelo chão.

Também nós passamos por esses revezes. E quando acontece não permitimos que o sol penetre por qualquer fresta, nos encolhemos, deixamos cair as lágrimas, nos voltamos para nós mesmos como se essa fosse a única opção oferecida pelo universo. 

Ao contrário do tempo, porém, podemos escolher nossas estações. Temos a faculdade de nos colorir e florir, vivendo uma primavera perfumada. Podemos deixar cair o que não mais nos serve, abraçando um outono e nos preparando para a necessária renovação. Podemos nos aquecer intensamente distribuindo e recebendo amor, usufruindo de um encantador verão. E podemos nos recolher, como o tempo de hoje, nos entregando a tristes lembranças, capazes de nos envolver com um frio que nada aquece, em devastador inverno.

Somos guiados por emoções, enquanto o tempo segue os ponteiros de um relógio ao qual não tem acesso. Se ele apresenta algum defeito, como tem ocorrido atualmente, descontrola-se. Há chuva onde os morros vivem úmidos, fazendo com que o barro escorra sobre  casas, pessoas e animais, levando tudo. Enquanto isso, os solos áridos nem conseguem chorar, embora quebrados por um tempo que nada permite ali florescer, tornando secas de esperança as vidas de pessoas e de animais. Conhecemos esses caminhos tortuosos, dele e nossos.

Ele não pode reagir de acordo com sua vontade, mas a nós é atribuída essa faculdade. Cabe-nos, tão somente, agir, plantando o que sabemos vai florir, cobrindo-nos de luz para enfrentar essa realidade estranha , questionável, insatisfatória... que nos desgasta a cada dia.

                                                    Marilene


14 setembro 2022

E ESTAMOS ABRAÇANDO A PRIMAVERA

                                                              (Vladimir Kush)

                                                        


Meu sonho de consumo para hoje é o balanço em uma rede, em varanda frente ao mar. Não precisaria música porque é grande o deleite que o canto das águas oferece. Ali, com pouca roupa, poderia saborear a brisa e enveredar no mundo dos sonhos. Um paraíso, né? Mas tenho que estar aqui, entre prédios, suportando um abafamento sem igual. O calor e a baixa umidade do ar me deixam com a garganta seca e , com todas as janelas abertas, não posso fugir do pó, que sempre aparece, de forma invisível, me fazendo tossir. Essas questões sobre o aquecimento global e o descaso como a matéria é tratada me vêm à mente. O desequilíbrio climático provocado, entre outras causas, pelo desmatamento, me faz sonhar em morar na praia ou em uma casa campestre. Simples sonhos, sei bem, pois sou urbana. Esses lugares vislumbro como fontes de relaxamento temporário.

Enquanto estou aqui, diante do computador, percebo que a máquina de lavar parou de funcionar. Hora de estender a roupa no varal. Isso me faz lembrar do blog da Chica, com a palavra esturricada, pois é assim que me sinto. Não me dou bem com ar condicionado, nem ventiladores. Nem sei porque compro carro com o equipamento, já que não o uso, embora o mantenha sempre em condições para isso.

E ainda me lembro que tenho que elaborar uma peça jurídica. Aposentados não ficam livres de trabalho, só que o fazem sem remuneração. Há sempre alguém da família ou amigo que precisa de orientação. E o aposentado se vê obrigado, por razões sentimentais, a entrar em ação.

Fazer o que, né?? O jeito é ir cuidar da roupa , tomar litros de água, depois entrar no chuveiro e tentar encontrar algo que me agrade no netflix porque das programações da TV já me cansei. Nessa época, então, com as propagandas eleitorais, algumas cômicas e a maioria cheia de inverdades, não dá. 

Salve-se quem puder!


                                                         Marilene


04 setembro 2022

CASA DE MÃE

                                                                (Augusto-Peixoto)



                                                               

Depois da rebeldia da adolescência, da vontade de abraçar o mundo com liberdade, de alçar seu primeiro voo em busca de realização, de conquistar o próprio espaço, você olha para trás e até percebe que verteu e deixou lágrimas pelos caminhos. Não foram lágrimas de tristeza, mas de saudade. Saudade da casa da mãe.

Quando tropeça, se frustra, se perde, parece ouvir aquela conhecida voz a lhe dizer: volta, a casa será sempre sua, estou aqui.

Aquela casa tem cheiros e sabores especiais. É ponto de encontro em muitas datas e, mesmo que não esteja lá, fisicamente, seus pensamentos conseguem acompanhar todos os movimentos, todas as vozes, todo o acolhimento que ela oferece. E por vezes incontáveis você desejou estar lá, contando seus progressos e fracassos ou, simplesmente, ficando em silêncio,  para absorver a paz que aquele lugar lhe proporciona.

Casa de mãe é paraíso que não foge, que não se distancia, que não tem portas fechadas. Seja grande, pequena, minúscula, abriga todos os filhos e agregados, ainda que embolados. Não faltam lençóis limpos, panelas fumegantes no fogão, um doce preferido, um sorriso amigo. É a casa da verdade, das origens, dos valores, do amor. Ali, não importa o eventual descascado das paredes, o chuveiro que falha, a ausência de aparelhos modernos e sofisticados como os que você tem em sua própria casa. Ali, mora a simplicidade de uma convivência que não se perde no tempo e na distância.

Aquela é a casa do amor e não subsiste apenas como casa, mas como abrigo de um grandioso coração. E quando ele para de bater, tudo perde o sentido. Não há mais reuniões, mais braços abertos, mais aconchego. Vira apenas uma casa, como qualquer outra, já que deixa de ser o conhecido símbolo de uma proteção indestrutível e da primeira felicidade familiar.

                                                                 Marilene