14 de fev. de 2021

PARALELOS


 

                                              

Mora a história em cada espaço alcançado pelo nosso olhar. Podemos conhecer a do fora e apenas imaginar a que existiu dentro deles. Por vezes, há brilho e luz. Em outras, abandono e destruição. Mas todos abrigam vidas. Sim, abrigam, no presente, pois todos os espaços têm, em si, as vozes, os anseios, as esperanças, as dores, as lágrimas... e tudo o mais dos que por ali já passaram. Entranhadas ficam nas lembranças, e nas próprias janelas que um dia se abriram mostrando a vida, de dentro e de fora.
 
Quando observo a arquitetura das cidades, notadamente das valorizadas por sua antiguidade, hoje pontos turísticos, não consigo dissociar o presente do passado. Cada detalhe tem, por certo, significados que não podem ser decifrados por olhares vagos, passageiros, indiferentes ao ontem. Fico a imaginar as pessoas que habitaram os imóveis, tão diferentes de nós em hábitos, na maneira de vestir, nas tradições abraçadas. E tão iguais quando pensamos em suas aspirações, eis que os seres humanos sempre acalentam sonhos, ilusões, desejos dos mais diversos. Alguns não poderiam imaginar os candeeiros substituídos por lâmpadas, os poços artesianos trocados pela água encanada, os trens desaparecendo com a chegada dos ônibus... as mudanças estruturais, de trabalho, de comunicação.
 
Creio que a insegurança e o medo sempre existiram, mas usavam roupagem bem diferente, inobstante algumas situações do ontem venham até os nossos dias. Vozes de insurreição não eram ouvidas, a ausência de respeito pelas diferenças não se desfez, os discursos machistas eram considerados até adequados, as minorias permanecem como tal embora hoje lutem mais para se tornar visíveis e com direitos.
 
Prédios antigos, cuja arquitetura admiro e que parecem destoar da paisagem em muitos centros urbanos, sempre me encantam. São arte, são beleza, são riqueza. Voltando, no entanto, aos que neles viveram, trabalharam, sonharam, sinto que todos são como os que habitamos, silenciosos em sentimentos e em vida. Apenas o lado de fora é valorizado, comportamento comum no olhar de um ser humano para outro, sempre atento a inúteis detalhes que o tempo levará, pois somos finitos e jamais nos perpetuaremos como aqueles imóveis, patrimônios históricos que merecem preservação por significarem cultura.


                                                              Marilene



31 de jan. de 2021

EITA GINÁSTICA !

                                                                (Ann-Cutting)


                                      

O que fazer São Paulo em um final de semana normal, sem pandemia? Por certo, inúmeras opções seriam mencionadas por quem ouvisse essa pergunta. A cidade que não para oferece de tudo, a qualquer hora. E há os que, simplesmente, desejam aproveitar os dias  com a família, após uma semana estressante de trabalho.
 
Não possuindo família na grande capital, tinha muitos amigos quando lá residia, a maioria como eu, longe de casa e vivendo sozinhos. Entre eles, a cunhada de minha irmã, com quem mantinha ótimo relacionamento. Assim, passava sábado e domingo no apartamento dela, quando nada havia programado para aqueles dias. No sábado, íamos a uma cantina italiana para jantar, mas não saíamos da salada. Nossa!  Enoooorme, e com  torradas deliciosas. Depois dela já estávamos satisfeitas. E ficávamos nas confidências. Falávamos sobre o trabalho, sobre aspirações, sobre amores, sobre decepções... uma terapia, sem dúvida. No domingo, à tarde, ela colocava um disco para tocar (tinha uma coleção invejável de discos de vinil). Ambas gostávamos muito de dançar (ainda adoro). Escolhia sambas e rodopiávamos pela sala de seu enorme apartamento como se estivéssemos em uma passarela, durante o carnaval. Se alguém nos observasse da janela de um apartamento distante pensaria que éramos loucas. Vixe!!!! Naqueles momentos, éramos passistas de escola de samba. Braços e quadris se mexiam  sem parar e com harmonia, pois conhecíamos muito bem os  passos e rebolados da dança. E ríamos tanto que até nos sentávamos, de vez em quando, pois é impossível fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Hoje, voltei ao passado. Coloquei um CD para girar e dancei, dancei, dancei , até meu corpo pedir arrego. Quando parei, minhas pernas, por tempo demais acomodadas, começaram a doer. Mas, além da dança, ri sozinha. Não há coisa melhor nesses tempos obscuros do que dar umas gargalhadas. Nem precisa haver razão, apenas motivação íntima. Só não cantei porque ia assustar os vizinhos de cima e de baixo. Primeiro, porque já se acostumaram ao silêncio em meu apartamento. Segundo, porque  meus desafinados sons não teriam o condão de estimular ninguém ao canto. Sem dúvida, o interfone logo tocaria, para saberem o que estava acontecendo, eis que assustados com meus grunhidos. Aliás, alguém canta em casa, atualmente???? Creio que nem no chuveiro, como fazíamos no interior. Desaprendemos. Também, as músicas que hoje "encantam" nada tem a ver comigo. Letras horríveis, ritmos estranhos que só cabem, mesmo, na cabeça dos jovens, e que eu seria incapaz de acompanhar. Sou Bethânia, Chico, Gal, Gil, Taiguara, Simone,  Roberto Carlos, Milton Nascimento e muitos outros (difícil mencionar todos) que não querem saber de funk, rap e afins. Isso, falando de música brasileira, porque há muitas de qualidade  mundo a fora.

Agora, vou tomar um banho e descansar, pois a ginástica me esgotou. Também, com esse despreparo!!! 


                                                                                 Marilene



28 de jan. de 2021

A ROTINA DO NADA

                                                          (  Cayetano Arques )

                                   


Desperto, quase todos os dias, com o toque do telefone. Ligação que não vou atender, mas que interrompe meu sono. Tento adormecer novamente, já que deito tarde e preciso dormir, mas logo depois o maldito telefone toca de novo. Pelo número que chama vejo que é de algum banco a oferecer crédito ou outras bobagens relacionadas a cartão. E  fico irritada, logo de manhã, porque a insistência deles é enlouquecedora. Essas chamadas vêm pelo fixo, cujo número mudei, pelas mesmas razões. Mas descobriram o novo!!!!

O celular, desligo ao ir para a cama. Quando eu o ligo fico pasma com a quantidade de ligações não atendidas ali registradas ( cujos números vou bloqueando), fora a de mensagens, até do exterior, informando que recebi prêmios, assim como comunicados de ofertas de lojas onde nunca entrei.
 
Penso no que vou fazer durante o dia... nada. Não gosto de cozinhar e não quero mais ficar limpando armários, o que fiz no início do confinamento. A faxineira retornou e, embora de forma insatisfatória para mim, mantém o apartamento em ordem. Deixo recados na geladeira quando algo ignorado por ela  precisa ser feito.
 
Depois do banho fico em dúvida se vou a algum lugar. Não há opções, posso escolher entre mercado e padaria. Mas não estou precisando de nada. Outra vez... o nada.
 
Minhas roupas, quando abro os armários, estão como eu, ansiosas por dar um passeio e fugir da rotina de ficarem paradas ali dentro, sem utilidade.
 
No escritório, observo o grande número de livros. A maioria já li, mas outros tantos ficam a me chamar, insistentemente. Tenho fases de leitora voraz e outras de preguiça mesmo. Tudo que se apresenta como atividade requer que me acomode em um sofá. Meu corpo já está inconformado com o tempo que passo ali. Cutuco a mente para encontrar uma variante e o que encontro??? Nada!
 
Nunca fui de me dedicar a exercícios físicos e meu bairro, como a maioria dos de Belo Horizonte, têm morros, característica do estado de Minas Gerais. Para caminhar, teria que ir a um parque, ideia, no entanto, de todos. Aglomerar, Deus me livre!
 
Até sinto saudade da época em que trabalhava, pois havia que cumprir horários e correr de lá para cá, sem ver o tempo passar. Hoje, correr para onde? Para que? Fico sem esperar nada do dia, embora seja grata a cada amanhecer, por mais um despertar.
 
Estou vivendo uma rotina estranha, a do nada. Nada para fazer, nada para programar, nada para esperar, nada para sonhar, nada para realizar...
 
Nada! Nada!

A rotina de nadar dentro do nada...


                                                                 Marilene