13 junho 2022

O HOJE BASTA??

                                                            (Antonio Mora )

                                                     

Nos últimos anos eu me senti como a namoradeira na janela, olhar perdido no horizonte, indiferente à alternância entre dia e noite, sem necessidade de relógio. Prisioneira da vida, de uma realidade que acorrentava os pés e impulsionava, tão somente, as emoções. A pressa, antes costumeira, perdeu o sentido. Os sonhos tinham, obrigatoriamente, que ficar hibernando. E fui me acostumando com a mesmice e até com a insegurança e o medo.

De repente, comecei a despertar. A vida foi desatando os nós e o horizonte não me pareceu mais inalcançável. Não obstante, a acomodação criou raízes. O verbo querer passou a ser conjugado de forma diferente. O verbo poder adquiriu nuances estranhos e apresentou cores não tão cintilantes como as que me costumavam encantar. Mudei. E como mudei!

Fico a observar as pessoas, as conversas , os comportamentos, e percebo que o mesmo não aconteceu com todos. Eu vesti, e me coube perfeitamente, a letra da canção "Tocando em Frente", interpretada por Almir Sater, na parte que diz: "... ando devagar porque já tive pressa..." . Meus passos ficaram mais lentos e sua escolha mais cuidadosa.  Enquanto alguns buscam, desesperadamente, viver o hoje como se o último dia de suas vidas fosse, eu o saboreio calmamente, desejando que dure mais tempo do que aquele que o relógio marca.

Viver o hoje, como tem sido recomendado, não significa engoli-lo rapidamente, satisfazendo objetivos nem sempre saudáveis, mas tendo-o com um valioso presente. Que nada sabemos sobre o futuro é certo, mas se ele nos chegar não pode vir acompanhado de arrependimentos pela insensatez do ontem.

Então, será que o agora realmente basta????? É tudo, independente das consequências, de eventuais danos produzidos a terceiros, valendo a realização pessoal instantânea? Quando o hoje é evidenciado por escritores há uma conotação poética, não uma filosofia de vida. O mundo já é uma loucura quando tudo que fazemos resulta de projetos bem pensados, de reflexão. Ter saudade de momentos, de coisas, de pessoas... é melhor que termos saudade de nós mesmos, antes de girar, freneticamente, os ponteiros do relógio, já que não o podemos fazer em sentido contrário.


                                                                                Marilene


03 junho 2022

TROPEÇOS

                                                        (BY IGOR MUDROV)


A garotinha que passava na calçada, de mãos dadas com o pai, tropeçou, repentinamente, sendo amparada por ele. Observei o chão e nada havia ali que pudesse provocar a queda de alguém.  Continuei a caminhar, mas meus pensamentos estavam voltados para aquela cena. Não para ela, especificamente, mas para nossos próprios tropeços durante a vida.

Quando eles ocorrem, também procuramos buracos inexistentes nas calçadas , possíveis empurrões, na busca de respostas que, certamente, estão dentro de nós. Na maioria das vezes, não há culpados no exterior. Tropeçamos em nós mesmos, em nossa falta de atenção, de confiança , de preparo. Alguns, em suas altas expectativas, em desmedidas ambições e, o pior, na crença de que são credores da vida e/ou de outras pessoas pelas quais já passaram e com as quais conviveram.

Ao contrário do que os alguns afirmam, não se pode aceitar tudo que vem de graça, só pela falta de ônus, eis que podem contrariar nossos valores, nossos interesses e forma de pensar. E não se pode esperar que tudo nos chegue sem esforço, empenho, sacrifícios...

Creio que o número de insatisfeitos supera, e muito, o daqueles que cultivam e plantam, mesmo sabendo que, se o tempo não ajudar, perderão todo o trabalho e não chegarão à esperada colheita. 
Supera o de otimistas, que acreditam em seus valores e tentam se aperfeiçoar, cada vez mais. 
Supera o dos que se sentem felizes, acordando, a cada dia, colorindo de esperança as novas horas que se anunciam, ainda que o tempo se apresente escuro, sem resquícios da presença do sol.

Insatisfeitos buscam culpados e não soluções. E ficam amargando uma dor criada e alimentada por eles, permitindo que ela cresça e se fortaleça, fazendo com que caminhem de cabeça baixa , sem perceber que, com mais atenção, conseguiriam sair do marasmo e ter belezas para agradecer.

Tropeços são fundamentais para um andar firme e vigoroso. Não é necessária a ajuda de um terapeuta para se chegar a essa conclusão. Basta olhar a criança que engatinha, que cai, mas que tenta novamente, até correr, livre e sorridente, pela casa.


                                   TROPEÇOS           

                                  
         Nem  sempre existe um ombro
para se pousar a cabeça
       em momentos de fragilidade.
              Nem sempre há mãos estendidas
                                               para nos socorrer da maldade                                     

             Nem sempre há ouvidos atentos
 ao que precisamos dizer,
 a nos ajudar a esquecer 
                                               mágoas, ofensas,
                       e as demais dores que abraçam o ser

                                               Nem sempre !

                                               E é por isso que ,
                                               nos momentos
                                               em que nos vemos no chão,
                                               precisamos tirar de dentro
                                               o nosso próprio sustento
                                               emocional


                                                                    Marilene


14 fevereiro 2021

PARALELOS


 

                                              

Mora a história em cada espaço alcançado pelo nosso olhar. Podemos conhecer a do fora e apenas imaginar a que existiu dentro deles. Por vezes, há brilho e luz. Em outras, abandono e destruição. Mas todos abrigam vidas. Sim, abrigam, no presente, pois todos os espaços têm, em si, as vozes, os anseios, as esperanças, as dores, as lágrimas... e tudo o mais dos que por ali já passaram. Entranhadas ficam nas lembranças, e nas próprias janelas que um dia se abriram mostrando a vida, de dentro e de fora.
 
Quando observo a arquitetura das cidades, notadamente das valorizadas por sua antiguidade, hoje pontos turísticos, não consigo dissociar o presente do passado. Cada detalhe tem, por certo, significados que não podem ser decifrados por olhares vagos, passageiros, indiferentes ao ontem. Fico a imaginar as pessoas que habitaram os imóveis, tão diferentes de nós em hábitos, na maneira de vestir, nas tradições abraçadas. E tão iguais quando pensamos em suas aspirações, eis que os seres humanos sempre acalentam sonhos, ilusões, desejos dos mais diversos. Alguns não poderiam imaginar os candeeiros substituídos por lâmpadas, os poços artesianos trocados pela água encanada, os trens desaparecendo com a chegada dos ônibus... as mudanças estruturais, de trabalho, de comunicação.
 
Creio que a insegurança e o medo sempre existiram, mas usavam roupagem bem diferente, inobstante algumas situações do ontem venham até os nossos dias. Vozes de insurreição não eram ouvidas, a ausência de respeito pelas diferenças não se desfez, os discursos machistas eram considerados até adequados, as minorias permanecem como tal embora hoje lutem mais para se tornar visíveis e com direitos.
 
Prédios antigos, cuja arquitetura admiro e que parecem destoar da paisagem em muitos centros urbanos, sempre me encantam. São arte, são beleza, são riqueza. Voltando, no entanto, aos que neles viveram, trabalharam, sonharam, sinto que todos são como os que habitamos, silenciosos em sentimentos e em vida. Apenas o lado de fora é valorizado, comportamento comum no olhar de um ser humano para outro, sempre atento a inúteis detalhes que o tempo levará, pois somos finitos e jamais nos perpetuaremos como aqueles imóveis, patrimônios históricos que merecem preservação por significarem cultura.


                                                              Marilene