6 de abr de 2011

FAMÍLIA X TRAGÉDIA

                                                              

Há alguns anos, comecei a sentir dores horríveis no pé esquerdo e não conseguia caminhar. Não tinha caído, estava andando, normalmente, em uma rua dos Jardins, em São Paulo, procurando, inclusive, roupas de praia, pois ia fazer uma viagem de férias. Voltei de táxi para o trabalho e a unidade médica me sugeriu ir, imediatamente, a uma clínica ortopédica já utilizada pela então responsável pela área.

O diagnóstico foi demorado, me submeti a vários exames, até que um dos ortopedistas, professor e bem experiente, discutiu meu caso com o médico aos cuidados do qual eu estava, concluindo eles que eu havia sofrido uma fratura por estresse, no peito do pé, dificilmente detectada  em raio X.  Por consequência, tive que ir lá por muitas vezes. Enquanto aguardava atendimento, observei que o ortopedista do qual era paciente atendia um número grande de crianças sem movimentos, carregadas, com dificuldades, pelas mães. Estranhei o pouco comparecimento de pais e fiz um comentário, nesse sentido, com o médico. Fiquei surpresa com o que ele me disse.  Muitos pais, ao tomarem conhecimento que o filho nasceu com deficiências irreversíveis, não conseguem conviver com o fato e o casamento termina. Ficam as mães com o sofrimento e com o difícil dever de tudo fazer para tentar melhorar as condições de vida dos filhos, ainda que a viabilidade de progresso seja mínimo. O médico era um especialista nesses casos e tratava com muito carinho aquelas crianças, razão pela qual sempre o admirei.



                                                          
Quando uma situação traumática assola uma família, podem seus membros se unir ainda mais, ajudando-se uns aos outros na superação. O que se sabe, porém, é que, em muitos casos, a dor acaba gerando atribuições de culpa e consequentes brigas que culminam com uma irremediável separação.


Nem todos gostam de rever filmes. Como tenho grande atração por eles, costumo , quando não encontro lançamentos na locadora, pegar os antigos, aqueles cuja sinopse me leva à presunção de que não me lembraria de todos os seus detalhes. Assim, tenho revisitado belos e significativos filmes. E tenho notado que  alguns detalhes já estavam, realmente, escondidos em minha memória. Foi o que me aconteceu, ontem, com NO LIMITE DO SILÊNCIO, um suspense que tem no papel principal o consagrado Andy Garcia. O filme tem tudo a ver com os fatos que antes mencionei.


                                                           
Andy Garcia interpreta um renomado psicoterapeuta que tem uma casal de filhos e uma vida familiar harmoniosa . Na adolescência, o filho passa por um processo de depressão e acaba por se suicidar.  A família desmorona com as atribuições de culpa. A esposa atribui responsabilidade ao marido, que já se sente culpado, e a filha também passa a carregar a fatídica culpa, entendendo que estava mais preocupada consigo mesma, não dando ao irmão o devido apoio. Ele desiste de exercer a profissão e passa a escrever livros e dar algums palestras em universidades.

Em uma dessas ocasiões, uma ex-aluna lhe pede para ver um garoto que vive no orfanato onde ela é assistente social, alegando que tem dúvidas a respeito de sua liberação para assumir a própria vida. Diante de sua recusa, deixa com ele o histórico do garoto, pedindo que o lesse.

Mesmo sem interesse, acaba por tomar ciência da vida do adolescente, que tinha visto seu pai assassinar sua mãe. Resolveu visitá-lo e acabou por fazer uma associação entre o garoto e seu filho. Encontrava diversas similaridades no comportamento de ambos, quando nervosos. Da mesma forma que seu filho se portava, o garoto fugia de conversas, adiando-as. o único recurso que encontrou foi visitar o pai dele na prisão.

                                                    
Não vou aqui narrar todo o enredo, mas não poderia deixar de mencionar a razão do suicídio, que só aparece quase no final do filme. Há uma conversa emocionante entre os dois pais. Acaba contando que o filho deixara um bilhete ao qual apenas ele tivera acesso. Quando o adolescente começou a ficar deprimido, o pai o encaminhou para terapia, com seu grande amigo, já que, na qualidade de pai, não teria condições para tratá-lo, profissionalmente. E ao ler o bilhete, foi dominado por uma raiva insana. Seu colega de profissão havia molestado seu filho, que passou a se sentir enojado e sujo. Não teve coragem de se abrir em casa e optou por tirar a própria vida. Possuído pelo ódio, foi até a casa do outro psicoterapeuta, para matá-lo, mas seu antigo amigo, diante de seus gritos de revolta, pegou também uma arma e se suicidou, pois era casado e tinha filhos.  Parece um dramalhão, não??  Mas não é. Pode acontecer em qualquer família. Ninguém está livre de ter um filho molestado, infelizmente.

Ao ouvir, o outro pai resolve se abrir. Chegando em casa mais cedo, encontrou a mulher molestando o próprio filho e, em acesso de fúria, a matou diante da criança.  E o psicoterapeuta disse-lhe então que passaram por situações semelhantes e o fato de um estar preso e o outro solto decorreu, tão somente, do fator sorte, porque ele tinha intenção de matar o molestador de seu filho.

Todas as vezes que falamos de família, o centro das atenções são os filhos. E quantos casos ouvimos, de quantas tragédias somos cientificados, que poderiam, eventualmente, ter sido evitadas.

                                                      
O nascimento de um filho com problemas não pode ser impedido, mas é de uma covardia imperdoável o comportamento do pai que abandona a família nesse momento, essa fuga , em pessoas normais, vai constituir um peso difícil de carregar pela vida a fora. Isso penso eu.

O suicídio de um filho já é outra situação, mas também exige união. Conheço dois homens que passaram por isso. O casamento de ambos acabou e jamais serão os mesmos. Nenhum dos dois tem palavras para falar sobre o assunto. E ambos convivem com um sentimento de culpa que só poderia ser amenizado com uma terapia.

Em todos os casos, porém, acredito que continuar unidos seria  como uma terapia. Falar sobre o que aconteceu, viver a dor, continuar a fazer planos, prestar socorro aos entes queridos. O mais triste é a fuga porque se o problema está na mente, em nenhum lugar do mundo esses fugitivos encontrarão o abrigo que procuram.



Um comentário:

  1. VOU VER O FILME HOJE, POR ISSO AINDA NÃO LI A
    PARTE FINAL DE SUA POSTAGEM A RESPEITO DO TEMA
    ABORDADO.
    bJS.

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