29 de mar de 2011

ENTRELINHAS... COMO LER?

(arquivo pessoal)

                                                                 
Sempre gostei de literatura e sou amante incondicional da poesia. Em tudo que olho procuro encontrar um significado especial, um colorido diferente. Mas esse tema é objeto de meu outro blog. Lá , abro meu coração em versos. De forma simples, como os textos que prefiro ler.

Hoje, fazendo uma faxina em meus papéis guardados, encontrei uma colocação de Clarice Lispector que me levou a divagar sobre o tema entrelinhas.   Ei-la :
                                                           
"Ouve-me. Ouve o meu silêncio.
O que falo nunca é o que falo, e sim, outra coisa.
Capta a "outra coisa" porque eu mesma não posso."

É muito bonito usar "entrelinhas" em poemas. Fica o leitor com abertura para do texto depreender qualquer sentido.  Isto, porém, não acontece na vida real.  Se as pessoas não dizem o que realmente pensam, o que de fato desejam, nem sempre sabemos como nos comportar. Eu não sei ler nas entrelinhas. E mesmo que soubesse, não gostaria. Tudo teria uma conotação interrogativa e teríamos que responder às nossas próprias perguntas.

Quando um homem convida uma jovem para sair, por exemplo, tem uma certa idéia de onde poderão ir. Os mais delicados costumam, ao encontrá-la, perguntar: onde deseja ir? o que gostaria de fazer?  A mulher também tem em mente sua real vontade, provavelmente pensou nisso o dia todo, mas responde: o que você quiser.  Conclusão - ninguém foi claro e estarão sujeitos a um encontro insatisfatório do qual cada um deles, infelizmente, poderá fazer uma espécie de análise/julgamento do outro, de forma totalmente equivocada. O mesmo vai ocorrer com aquele que nada pergunta e leva a moça para uma atividade que não lhe dá prazer.
                                                                      
Como eu gostaria de possuir uma bola de cristal!  Mas nunca vi uma, exceto aquelas usadas para decoração, sem qualquer poder para esclarecer situações. Nem falo em previsões, mas tão somente em entendimento.

Os homens e as mulheres já têm uma visão diferente do mundo, já possuem reações diversas, motivos de tantos desentendimentos . E esse fator é agravado, sobremaneira, em razão das entrelinhas. Ficam todos esperando que os outros adivinhem o significado do que disseram ou pretendem. Aí, vem a necessidade da autenticidade.  Até para uma pergunta simplista, a resposta pode não ser clara. Se questionam a cor de sua preferência, na expectativa de agradar, a resposta vem com outra pergunta.

A convivência entre homens e mulheres seria muito mais fácil se ambos se fizessem entender de maneira clara e objetiva, sem o uso das entrelinhas.
Não temos a faculdade de adivinhar. Se no trabalho já é complicado o entendimento quando as prioridades e necessidades não são colocadas abertamente, no campo amoroso, então, nem se fale.

Há algum tempo, uma amiga me presenteou com o livro HOMENS, MULHERES E RELACIONAMENTOS, do psicólogo John Gray, também autor do best-seller HOMENS SÃO DE MARTE, MULHERES SÃO DE VÊNUS, com a seguinte dedicatória " Espero que este livro ajude você a, pelo menos, começar a entender os habitantes de outra GALÁXIA".  Tudo bem, a obra é interessante, verdadeira, mas não podemos generalizar.  No nosso mundo moderno os valores não são os mesmos. Encontramos homens com extrema sensibilidade, claros em seus posicionamentos, amigos, companheiros, da mesma forma que encontramos mulheres mais frias, que não demonstram sentimentos, que priorizam o trabalho e não dão a devida atenção aos filhos, chegando a deixar sua educação aos cuidados dos pais.

John Gray menciona, em sua obra, que "O verdadeiro amor é incondicional; ele não exige, e sim afirma e valoriza. O amor incondicional é impossível sem o reconhecimento e a aceitação de nossas diferenças. Enquanto nos iludirmos acreditando que nossos entes queridos estariam melhor pensando, sentindo e se comportando como nós, o verdadeiro amor estará obstruído. Assim que entendermos que eles são pessoas diferentes de nós e, mais ainda, que devem ser diferentes de nós, os obstáculos no caminho do amor genuíno começarão a desmoronar." 


Todos sabemos dessas diferenças. A dificuldade está em identificá-las. Como  brincam alguns, "o ser humano não nasce com manual de instruções".  A educação diferente que recebemos, nossas diversificadas experiências, nossas tradições familiares e sociais estarão sempre a esbarrar nas convicções das pessoas que pouco conhecemos ou que acabamos de encontrar.

Em meu entendimento, que nada tem de científico, não são as diferenças que vão separar os indivíduos, mas a falta de conhecimento delas. Todos precisamos saber em que terreno estamos pisando, a fim de fazermos nossas escolhas.  Aí volto às entrelinhas. Se não dissermos o que de fato gostamos ou se o fizermos com subjetivismo, sem clareza, as outras pessoas lerão nas entrelinhas coisas bem diferentes, causando o desencontro, assim como a falsa afinidade que um dia, certamente, vai gritar. 

Já ouvi, em minha própria família, alguém dizer que foi a um péssimo oftalmologista porque os óculos estão com grau incorreto. Mas quem informou ao profissional o tamanho das letras necessário para que lesse bem? O médico também não lê nas entrelinhas, ou melhor, não é sua obrigação, tem que se basear ns informações que recebe do cliente.

Nos relacionamentos, seja de que natureza forem, familiares, de amizade, de amor, a clareza e a autenticidade são sua base, sua estrutura.
Devemos ser bem honestos , principalmente conosco. E dizer às pessoas como nos sentimos, mesmo nas situações de insatisfação, a fim de que não fiquem tentando adivinhar o que nos incomoda.

Ler nas entrelinhas é como ler o futuro em bola de cristal. Como elas não existem, passa-se ao campo das suposições, que nem sempre correspondem à verdade. Não devemos conjugar o verbo amar quando nosso sentimento é o gostar. Não devemos maquiar sensações e posicionamentos. Tudo isso nos levará, certamente, às famosas entrelinhas. Vamos deixá-las para os romances e poesias, porque seu lugar é no campo da ficção.


                                                           Marilene




                                                                        

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