22 de out de 2015

NÃO SE DISPENSA OS PAPÉIS NA ERA DA INFORMÁTICA

(by Brooke Shaden)


                                                     
Estamos na era da informática, mas nem todos os papéis podem ser substituídos por comunicações outras. Há disposições legais que os exigem, com assinatura, de forma a garantir e preservar direitos. Isso vem sendo ignorado, em nome da modernidade.

Ontem compareci a uma reunião do condomínio. Não gosto e raramente vou a elas, salvo se, da pauta constar algum item que mereça considerações especiais. Fico quieta, ouço e dificilmente me manifesto. Aliás, em toda a minha vida profissional, fugi de reuniões. Os temas principais não são abordados de forma conclusiva e outros, particulares, até, provocam uma discussão que impede seu término.

A nova administração resolveu defender, com rigor, a locação do topo do prédio para instalação de antenas. No mundo inteiro há uma discussão sobre os inconvenientes desse procedimento. E promoveu uma reunião informal, há alguns dias, sobre a questão. Vieram preparados para exibir, em uma tela, gráficos, estatísticas, resultados de pesquisas ... tudo a favorecer sua intenção. Como sempre, a palavra economia, quando se trata de redução de gastos, faz brilharem os olhos de alguns. Pesquisei o tema e também me muni de material contrário ao acatamento da proposta. Defendo, inclusive, a tese de que há necessidade de maioria absoluta para sua aprovação, inobstante alguns juristas a limitem a 2/3 dos condôminos. 

Na reunião de ontem, a proposta foi novamente mencionada, mas com a ressalva de que haverá outra, específica, para tratar da questão. Como sou totalmente contrária, ainda que todos votem sim, o meu "não" impedirá tal contratação (assim espero). Há muitos interesses em jogo, entre os quais o longo e interminável prazo do contrato, as influências nocivas à saúde, a desvalorização dos imóveis, os aspectos alusivos à segurança, já que a empresa terá acesso, a qualquer hora, ao edifício, para eventuais reparos. Minha experiência de vida mostra que a tal economia não é compensadora. Percebi que muitos pensam no hoje e que só vão lamentar quando um incidente ocorrer. Daí, perceberão não ser possível voltar atrás.

Mas falei sobre a reunião por outro motivo. Observando os presentes, constatei que não tenho relação de amizade com nenhum condômino. Moro aqui há mais de dez anos e não os conheço. Nosso relacionamento se restringe a um "bom dia", "boa tarde", boa noite" ... quando nos encontramos nos elevadores.  Outro fato que me chamou a atenção foi que a formação profissional deles não é usada em prol do condomínio. Não estão errados, mas uma orientação de alguns poderia ajudar na escolha de pessoas para realizarem obras, ou até para avaliar sua necessidade. Mas quem sou eu para julgar, se faço a mesma coisa? A reunião foi convocada por uma correspondência colocada no quadro de avisos, procedimento que contraria as disposições legais que antes mencionei. Qualquer um pode questionar eventuais deliberações, anulando-as, por não ter sido oficialmente convocado para ela. A síndica anterior até comentou o fato e os demais julgaram a medida desnecessária. Com sua experiência, foi enfática, trazendo à colação o Código Civil, o que fez com que síndico e administradores, tão ligados às comunicações pela internet, percebessem que os papéis ainda são prioritários em muitos atos. Sou advogada, mas não pediram minha opinião e fiquei quieta. Se atropelarem meus direitos, faço com que sejam validados, judicialmente.

Fiquei pensando em como é difícil administrar um pequeno grupo social, com interesses até comuns. E do qual os participantes têm ótimo nível cultural. Se não abraçamos as mesmas causas, se não respeitamos os mútuos interesses (dois condôminos já informaram que se mudarão do prédio caso as antenas sejam instaladas), como pode a sociedade, no todo, manter uma convivência harmônica?  O bem estar que desejamos para o mundo tem que começar aqui, no nosso pequeno espaço. E nem nele nos conhecemos, nos surpreendendo com as diferenças gritantes no modo de pensar de cada um.

O ser humano será sempre um papel em branco. E terá nos bolsos, constantemente, uma borracha que lhe possibilite apagar o que escreveu. Assim, embora tenha ouvido na reunião que a liberação de papéis faz bem ao planeta, mantenho meu posicionamento no sentido de que, já que a palavra nada prova ou representa, se mantenha a assinatura nas convocações de qualquer natureza, para que tenham valor legal.


                                                    Marilene




20 comentários:

  1. Concordo plenamente contigo e isso aconteceu por lá,mas acontece em várias ocasiões e nos deparamos com essa necessidade de resguardar nossos direito ,guardando assinaturas e papeis! Bjs, tudo de bom. Aqui no prédio aconteceu isso quando uma ou duas queriam um salão de festas que, daria incomodações mil. Foram voto vencido.Se mudaram...

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  2. Tens toda a razão, Marilene. Se as pessoas nem em relação às questões do prédio onde habitam conseguem interessar-se, entender-se , e pôr-se de acordo, como poderá ser isso possível na sociedade em geral...?
    Nos mais pequenos procedimentos, acabamos por ter de nos munir de papel e assinatura porque a palavra há muito deixou de ter valor, e teremos de estar sempre atentos para fazer valer os nossos mais elementares direitos.
    Por aqui também existem muitos conflitos em questões de condomínio. Felizmente não tenho desses problemas! :-)
    Bom fim de semana, Marilene!
    xx

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  3. Boa tarde Marilene :)
    Ainda hoje pela manhã, conversava com meu
    sobrinho sobre esse assunto,
    pois acho necessário guardar alguns papéis.
    Já ele não, dizendo que vivemos a 'era da informática...'
    Tem suas utilidades, mas
    não confio muito em computadores!rs
    Prefiro mil vezes o velho e bom papel!
    Guardá-los por determinado período é necessário,
    pra fazer valer nossos direitos.
    Olha, muitas vezes é complicado e estressante chegar a um
    denominador comum, nessas reuniões de condomínio,
    mesmo os participantes tendo 'interesses mútuos',
    imagine então se a sociedade vai manter
    uma convivência harmônica?!...cada um tem uma opinião,
    um interesse e nem sempre possuem um bom nível cultural...
    Perfeita sua colocação!
    Ótimo final de semana! Beijos :)

    P.S.:Muito bonita a nova foto do perfil!
    Tá com cara de poderosa!

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  4. Marilene, ao lê-la senti-me eu em reunião de condóminos.

    Somos muito semelhantes...

    Também sou mesmo alérgica a estas reuniões e só compareço quando é mesmo necessário.

    Em relação ao ambiente gerado é semelhante. É assim o ser humano...

    Parabéns pela oportunidade de tornar publica uma postura tão comum não só no Brasil mas em grande parte dos países europeus.

    ZCH

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  5. Olá Marilene, porque no mesmo barco, fiquei muito interessado na abordagem, se bem que haja pressupostos diferentes. Desde logo, em Lisboa, as comunicações, já dispensam, intervenções de condóminos. Depois, seria impensável uma convocatória sem carta registada. Terceiro, o primeiro condomínio, por uma intervenção minha (murro na mesa, debaixo do queixo do gestor) , levou todos os condóminos, a dispensa-lo. Acabou, para o prédio, aquela gerência. Eu já dispensado das reuniões, vim a inteirar-me cerca de 18 meses depois. Agora já sou eu a ter interferência, mas nunca mais assisti às reuniões.
    Papel, quando se julgaria que a tecnologia, o viria substituir, temos de concluir, que ele veio para ficar!
    Beijos

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  6. Oi mana,

    Também me acautelo bastante a respeito da exigência e preservação de papéis que recomendam assinatura, pois podem servir como prova ou respaldo para eventual discussão.
    Eu também votaria contra a instalação de antenas no meu prédio. Pelas razões que você menciona e por outros exemplos que conheço, acredito que tal medida seria de bom senso e acauteladora.
    Não é fácil mesmo administrar uma pequena comunidade, como os condomínios. Digo isto com propriedade, pois já fui síndica várias vezes e estou novamente nesta condição. É um aborrecimento atrás do outro, pois nem todos colaboram. Para você ter uma ideia, mandei fazer a prevenção contra incêndio e a maioria dos condôminos preferiu deixar as mangueiras na escadaria do que abrir a porta do elevador para a circulação dos funcionários da firma de prevenção. Estes ficaram insatisfeitos, reclamando por ter que subir pela escadaria para recolher os extintores e mangueiras. Claro que marquei horário e eles descumpriram, mas com um pouco de boa vontade de todos a questão seria solucionada sem maior desgaste. E olha que aqui são somente nove andares. Era para haver uma maior comunhão entre os moradores, o que, infelizmente, não ocorre. Prevalece, apenas, a cordialidade do cumprimento superficial.
    Concordo com suas considerações. Toda regra de boa convivência e respeito começa nos pequenos grupos.

    Beijo.

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  7. No hay que confiar mucho en las computadoras.

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  8. Maravilhoso texto, uma lucidez diante de todos os paradoxos humanos e a
    dinâmica dessas questões da tecnologia que devem ser pautadas.
    Destaco este trecho:
    "O ser humano será sempre um papel em branco. E terá nos bolsos,
    constantemente, uma borracha que lhe possibilite apagar o que escreveu"
    Uma verdade muito triste, mesmo!
    Com raras exceções!...
    Como aprecio a leitura que faço da sua arte literária, Marilene!
    Bjos,Querida.

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  9. Um texto muito interessante minha amiga e é uma grande verdade hoje em dia as pessoas isolam-se e no próprio prédio muitas vezes não nos falamos e não nos conhecemos uns aos outros.
    Já lá vai o tempo em que cumprimentamos os outros com um bom dia vizinho.
    Um abraço e bom fim de semana.

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  10. Ah, Marilene esta coisa de moradia em comum e o tal "assembleismo" criado neste tipo de moradia faz com que haja desinteresse dos moradores. No mundo do toma lá dá cá, o papel ainda é o referencial já que até a voz pode ser modificas e distorcida. Engraçado como as pessoas se julgam no direito de exterminar procedimentos, que são fatais em organizações. Seus questionamentos são perfeitos e já vi muitos prédios aqui evitarem o ganho com perdas da qualidade com implantação destas torres de transmissão de sinais em ondas que influenciam na especie humana.
    Eu as vezes tenho vontade de recusar estes "bom dia, boa noite e boa tarde" que nem abrem a boca, parece que estamos numa selva ou pior.
    Grite e defenda seus espaço e direitos.
    Uma linda semana ainda que os caretas tentem nos importunar.
    Meu abraço amiga.
    Beijo paz.

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  11. É um absurdo o que acontece nos condomínios! Que loucura o que você narrou, locar para antenas! Sabemos, e especialistas já falaram muito nisso para a saúde. Existem umas criaturas que nasceram para incomodar. No meu prédio é bom dia/boa tarde. Não abro espaço. No bairro é outra coisa, diferente. A aproximação gera atitudes descabidas. Também não participo de reuniões há anos. A última briguei, bem brigadinho. E nunca mais. Li o comentário da Verinha... Cruzes! Deve se incomodar muito.Gostei muito de teu texto, ponderado e técnico.
    Beijo!

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  12. É bem verdade, cara Marilene. O nosso condomínio é um microcosmos, imagem da nossa sociedade que não se entende nem tem em conta o interesse de todos. É preciso estarmos atentos, porque aqueles que defendem esta ou aquela modernidade poderá ter outros interesses por detrás. Infelizmente é assim. E nada como a assinatura para firmar um contrato. Antigamente havia confiança na palavra dada, e um aperto de mão era o suficiente para selar qualquer encontro onde se combinasse algo para o interesse de todos. Agora já não é assim.

    Gostei muito do seu texto.
    Bj
    Olinda

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    Respostas
    1. corrigindo o meu comentário: "...aqueles...poderão ter..."
      :)
      Olinda

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  13. Amiga Marilene, se eu pudesse não morava num prédio, pois toda esta problemática que tão bem descreveu é comum também aqui.
    Quando assistimos a algo com que não concordamos temos que fazer valer os nossos direitos.
    Sabe que lamento vivermos num prédio e não conhecermos os nossos vizinhos, perdeu-se a convivência que havia no tempo dos meus pais, tinha inconveniente mas tinha muito mais vantagens.

    Um beijinho amigo

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  14. Olá Marilene, bem interessante este post, hoje tou morando no interior em pequeno condomínio horizontal, mas sou como tu, formado em direito inclusive, mas não gosto de conflitos tão próximos, como vizinhos. As pessoas estão cada vez mais dificeis de lidar, como dizes, existe um egoísto destruidor, e se não conseguimos lidar com as coisas ao nosso redor, na nossa casa, como enfrentar o resto do mundo que todo dia bate a porta de nossa casa ? Infelizmente foi o tempo do "fio de bigode", não se pode mais confiar em ninguém, por isso acho necessário opor assinatura em papéis (sinto muito pela natureza, pelas árvores que tanto amo), mas devemos nos prevenir, uma questão de segurança.
    ps. Carinho respeito e abraço.

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  15. Concordo plenamente com você cara amiga.
    Infelizmente é assim mesmo que acontece.
    Um abraço e bom final de sema e agradecida apor sua visita.

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  16. Um post magnifico e vc sabe como
    nos conquistar com eles bjusss

    Os que desprezam os pequenos acontecimentos nunca farão grandes descobertas. Pequenos momentos mudam grandes rotas.

    ___Augusto Cury___

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  17. Muito muito complexo e complicado...e depois de tudo ninguém nem sabe quem vai lavar a louça...

    Você já sabe quem vai lavar a louça? Para saber, precisa ir lá no Blog Pedra do Sertão e divulgar entre os que fizeram a Prova do Enem. Texto para pensar!!!
    http://www.pedradosertao.blogspot.com.br

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  18. A frase (de que desconheço a autoria) "Se não conheces a tua rua para quê conhecer o mundo?", adequa-se na perfeição à mensagem deste teu excelente texto. Na maior parte das reuniões, é mesmo isto que se passa: parece que se trataram os assuntos mas, de facto, apenas são aflorados; cada qual olha para o seu umbigo e o interesse comum é relegado.
    Vivo numa moradia que "projetei" à minha medida; dá muito trabalho mas quando penso nos constrangimentos de viver num prédio, o trabalho torna-se leve!
    E claro que tens toda a razão: só é válido o que fica escrito, assinado e validado. Costuma dizer-se "não vá o diabo tecê-las" ou "mais vale prevenir do que remediar".
    Parabéns pela tua lucidez!
    Bjo, querida :)

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