17 de set de 2015

O GATORADE

(Gwladys Rose )
                                                     


Primeira neta, tinha uma ligação muito forte com a avó. O amor que as unia era transparente e até gerava ciúmes nos outros netos. Sabia ser extremamente carinhosa. Não economizava abraços, beijos, gestos afetuosos. Penteava os cabelos dela, na velhice. Dava-lhe broncas e lhe contava fatos loucos, só para vê-la se assustar e depois cair na gargalhada. Uma companhia daquelas que todos desejam ter quando a soma dos anos pesa demais.

Quando sua avó foi hospitalizada, em estado grave, entrou em desespero. E durante o período de internação dela, continuou a lhe fazer carinhos, mesmo sabendo que, aparentemente, nada percebia. Mantinha o hábito de lhe contar casos, pedia que mexesse a mão (o que até ocorreu), alimentando a esperança de que voltasse à vida. Mas isso não aconteceu.

Após seu falecimento, chorava e chorava. O marido lhe dizia que esse era o caminho de todos,  que ela possuía idade avançada, que não viveria para sempre. Quando acordava com os olhos vermelhos e quando a angústia a dominava, o marido voltava a lhe dizer que tinha que se conformar e seguir em frente. Chegava a passar a impressão de indiferença e frieza. Mas ela não engoliu sua dor e a expôs enquanto o sentiu necessário.

Pouco mais de um ano depois, o avô dele enfrentou o mesmo processo. Não era apenas o avô, porque o havia criado como filho. Seus pais se separaram, constituíram novas famílias, e ele foi "adotado" pelos avós. Quando me ligou, uma noite, dizendo que foram chamados ao hospital, eu lhe disse que, certamente, ele falecera. Ela não o acompanhou porque tem filhos pequenos. Como viajei, não fiquei sabendo o que aconteceu depois. Ao nos encontramos, novamente, perguntei como estavam as coisas e ela confirmou o que pressentira. E nos contou como foi o comportamento dele. Embora o assunto fosse sério e doloroso, não conseguimos conter o riso, diante do que ela fez.

Ele fora educado por pessoas mais velhas, de uma geração que não demonstrava emoções. Homem chorar????? Nem pensar!!! Ele a avisou sobre o falecimento e só voltou para casa depois de adotar todas as providências necessárias. Tinha os olhos vermelhos mas não permitiu que ela tocasse no assunto. Tomou um banho e foi para o velório. De lá, ligou, para dar  informações. Ela deixou as crianças com sua mãe e foi fazer companhia a ele. Quando chegou, ele se escondia , até que pediu que ela fosse embora. De jeito nenhum, respondeu. Vou ficar aqui, pelo menos uma hora. Por mais que ele insistisse, ela se recusou a sair. Ele não queria que o visse naquele estado de dor, e chorando. 

Já em casa, ela o observava esfregando os olhos, perguntava se queria alguma coisa, se fazia presente, mas ele se fechava. Trancou-se e desejava apenas ficar só. Em nenhum momento ela lhe disse que esse era o caminho de todos e que devia seguir em frente. Quando o via acordado, escondendo as lágrimas, fingia não ter percebido, para não constrangê-lo. Um dia, resolveu romper as barreiras. Foi ao mercado e, ao chegar, disse-lhe: Comprei algo para você e coloquei na geladeira. Tem bastante e pode tomar à vontade. Estou cuidando da sua saúde. Ele a olhou sem entender e ela continuou: Comprei bastante gatorade, para que não fique desidratado. Quer que eu lhe traga um?  

Com esse comportamento, ela o deixou descontraído e caíram na risada. Estavam vivos, guardariam saudade dos entes que perderam, mas ele não precisava esconder sua dor. Devia chorar sim, como ela fez, sem que isso o tornasse fraco diante da esposa.

O bom humor é uma grande qualidade e colabora demais para que momentos difíceis sejam superados com mais facilidade.



                                                               Marilene



27 comentários:

  1. Puxa, leio isso numa hora certa! Precisamos ser fortes, mas não esconder as lágrimas se insistem em cair! Nem imaginas a horinha em que veio esse texto! De encomenda! bjs, chica e tudo de bom!

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  2. Bom dia, Marilene

    Já estava com vontade de voltar a ler os seus belos textos, repletos de calor humano.
    Confesso que não conhecia essa bebida, Gatorade. Presumo que é uma bebida hidratante.:)
    Realmente ela resolveu muito bem a situação, recorreu ao humor e ainda bem que ele também
    o aceitou assim. Ela mostrou ao marido que os sentimentos não se medem pelos anos de vida que
    nossos entes queridos já tem mas pelo amor que nos foram presenteando ao longo da vida.
    E ele próprio o sentiu assim quando chegou a vez do seu avô.
    Muito obrigada.
    Bj
    Olinda

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  3. Linda história!
    Acho que eu era como ele... até que as minhas perdas começaram, e me vi abrindo o buá num hall de hospital, berrando com tudo. É melhor não guardar sentimentos assim.
    abraços!

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  4. Oi Marilene \o/
    Ainda bem que ela comprou Gatorade,
    pelo menos ele ficou hidratado!rs
    O bom humor, quando usado sem sarcasmo,
    ajuda amenizar algumas dores...
    Beijos!

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  5. Olá Marilene!
    Incrível na verdade, como as pessoas reagem de formas tão diferentes perante a perda de um ente querido!...Uns sentem necessidade natural de falar sobre o assunto, de não esconder a sua dor, enquanto outros (mais os homens do que as mulheres), se fecham, criando como que uma barreira, temendo mostrar a fragilidade que o sofrimento sempre provoca. Fazer o luto doerá a todos, mas o sentido de humor pode ser essencial para romper essa barreira, para fazer soltar o riso, ou pelo menos o meio sorriso, nas adversidades da vida. Como o teu texto tão bem demonstra!
    Quanto ao Gatorade ( e nisso também reside a piada), eu prefiriria água! :-)
    Gostei muito, Marilene!
    xx

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  6. Amiga muito obrigada pela sua visita a um dos meus blogues.
    Gostei imenso deste texto. E eu que ultimamente tenho
    andado tão envolvida com pessoas muito doentes e mortes.
    Desejo que se encontre bem.
    Bj.
    Irene Alves

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  7. Marilene, fui pesquisar o que era gatorade pois desconhecia e depois compreendi tudo e até acabei rindo também.
    O humor é um excelente balsamo para aliviar a tensão e as lágrimas também !

    Um beijinho com carinho

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  8. Olá, Marilene, me emocionei no final da sua história! Que linda demonstração de amor e paciência da mulher. Bom humor me parece o meio mais curto para abrir comportas de solidão. Eu acho que um homem chorando denota sensibilidade, jamais fraqueza. Não demonstra um problema de caráter, ao contrário, demonstra humildade e confiança em quem está por perto para se mostrar. Abraços!

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  9. gostei muito de ler.

    escreves muito bem. um prazer, sempre.

    beijo

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  10. Olá mana,

    Difícil resistir ao bom humor de outrem, mesmo quando o coração chora. Lembro-me de todas as vezes em que 'ela' arrancou sorrisos de nossa mãe.
    Essa de homem conter o choro, por machismo, já era. É bonito ver um homem chorar, extravasando suas dores, principalmente em momento de perda.. Lágrimas aliviam e lavam a alma. Dores divididas se tornam mais brandas. E ela foi muito criativa e original ao oferecer-lhe gatorade-rs.

    Linda e envolvente narrativa.

    Beijão.

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  11. Tão linda a tua forma de narrar, o teu estilo, vejo as imagens construídas por tu
    no texto, com a dança das palavras do significado poético proporcionando( quase) o
    toque da beleza narrativa e o senso de humor que eu adoro.
    Grata pela leitura encantadora, Marilene!
    Bjos.

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  12. Oi,
    Você desliza seus dedos no computador, como sou uma manteiga tive que tirar os óculos, pois as lágrimas escorreram, eu já perdi muito, mas a dor mais forte foi quando morreu meu pai adotivo de saudades da sua amada que se havia ido a quarenta e cinco dias. Você me fez relembrar que chorei das 22h até as 10h do outro dia, em nenhum momento desgrudei do caixão. Ele parecia feliz e queria encontrar sua amada.
    Estou seguindo você com sua permissão.
    Beijos no coração
    minicontista

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  13. Desculpa o erro: se havia ido por havia ido
    Foi a emoção
    minicontista

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  14. Sentimentos e emoções, grandiosas realidades de nossa vida.

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  15. Um texto maravilhoso e uma bela história.
    Um abraço e boa semana.

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  16. Excelente texto, Marilene, que encerra uma grande verdade: infelizmente, sempre perderemos pessoas queridas; é preciso deixar que a dor se vá, diluir a saudade nas boas lembranças e seguir. A vida continua! Belo post, boa semana.

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  17. Belo texto. Lembrei-me de minha avó, quanta saudade.
    Aproveito e fico com vc por aqui.

    Bjs

    Tânia Camargo

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  18. Nós mulheres somos amigas e companheiras.
    O homem é frio e calculista,pra eles tudo é normal.Mais quando afeta o lado deles,
    o mundo desaba.
    Belo texto!Amei em ler,cheguei ficar emocionada.
    Beijos.

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  19. Que delícia este relato, Marilene. E que sabedoria a da mulher!
    É isso mesmo, é sempre pior camuflar o que se sente.
    Bjo, querida :)

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  20. Excelente Texto ! Recordei a minha Avó materna com quem convivi e passeei muito , que muito me acarinhou e que partiu já muito velhinha e me deixou muitas saudades !

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  21. Maravilhoso texto, Marilene, lembrei tanto dos meus pais, irmão e avós que já se foram, que saudades!
    Um abraço querida amiga.

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  22. Temos formas diferentes de lidar com a dor e o luto.
    Mas amor e sensibilidade é forma única, para compreender e auxiliar quem passa por isso.
    Um abraço,
    Sonia

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  23. Excelente!!! A minha convivência com meus avós se resumiam ao período de férias, geralmente nos finais de ano, mesmo assim senti muito a ausência deles. Posso imaginar a dificuldade da separação por perda de quem convive diariamente recebendo e dando carinho, compartilhando momentos inesquecíveis. Estava tão emocionalmente envolvida com seu texto que não conseguia imaginar em qual momento o "Gatorade" seria citado.
    Os homens no geral tentam esconder seus sentimentos, para não demonstrar fraqueza, mas no fundo são tão sensíveis quanto as mulheres.
    Gostei e acabei rindo muito também. Um texto super criativo.

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  24. Boa semana! Aguardo o próximo post.

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  25. Gracias por tus cálidas palabras. Un gran abrazo desde Madrid,

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  26. Esse teu ótimo texto, um retrato perfeito, até um ponto foi triste pra mim, lembrei de minha mãe... Depois deu uma boa aliviada. Mostro meus sentimentos em cima do momento, depois, com o tempo começo a pensar, a ponderar as coisas, a pensar que não temos outro jeito... Embora eu continue triste, pelo menos tenho controle da situação. Quanto aos homens... existe coisa mais bela do que ver homem chorar? Parece com isso, que partiu-se uma rocha, um gelo, uma impressão de falta de sentimento. Homem quando demonstra, é como aquela música "explode coração"...
    Beijos, Marilene!

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  27. Eu não vim para dizer nada,
    mas para deixar um beijo.

    Bom Natal, amiga.

    .

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