18 de ago de 2014

FORÇA ESPIRITUAL

(imagem classificada como de domínio público)
                                                

                                              
De onde vem a força que algumas pessoas apresentam diante de dolorosas perdas?  Como conseguem lidar com as adversidades, falando sobre fatalidades pessoais, com tranquilidade? Terão espíritos evoluídos, que atingiram graus de desenvolvimento que eu e muitos não alcançaram?

Não pude deixar de, hoje, me voltar para a questão. Há pouco mais de um mês, quando desabei com o falecimento de minha mãe, uma grande amiga nos consolou. Moramos por muitos anos em São Paulo, partilhando incontáveis momentos, e nos mudamos para Belo Horizonte na mesma época, eis que nossas famílias são mineiras. Ela não queria fazer essa opção, pois amava São Paulo. Quando decidi regressar, sentiu-se só naquela cidade, sem um ombro amigo para apoiá-la, e voltou às origens. Não mais nos víamos com frequência, eis que sua filha e netos estão aqui. E eu me voltei para meus familiares, com quem só podia estar, anteriormente, por ocasião de férias e feriados.

Nossas vidas um dia vão findar, sabemos. Mas não imaginamos esse termo final, principalmente quando ainda temos disposição e nos sentimos inteiros. Há pouco tempo, ela nos oferecia apoio. Hoje, fomos oferecer esse mesmo apoio à família dela, da qual faz parte meu cunhado, marido da Vera, seu irmão. Tudo inesperado, fora do previsível. Submeteu-se a uma cirurgia em decorrência de um aneurisma abdominal, teve alta, passava bem e até voltara a trabalhar em casa, enquanto se recuperava. Repentinamente, o mundo, mais uma vez, ficou de cabeça para baixo e nos vimos no caos. Ela passou mal, ontem. Levada a um pronto socorro, o diagnóstico, ou melhor, a sentença: "gravíssimo; se suportar a cirurgia que se impõe ficará paralítica, pois não há mais circulação nas pernas; a prótese colocada no procedimento anterior sofreu alterações". A Vera e eu passamos a noite acordadas, pedindo a ajuda divina, enquanto aguardávamos que meu cunhado telefonasse. Somos frágeis e revivemos outros momentos semelhantes, até que a triste notícia nos chegasse: ela não conseguiu.

Havia prometido a mim mesma não falar sobre tais acontecimentos, aqui, mas as cenas que presenciamos no velório gostaria de registrar. Sua única filha , que deveria estar recebendo condolências, consolava os que a abraçavam. Assim agiu comigo, sem lágrimas, enquanto as minhas desciam, agradecendo a Deus por ter sido generoso com elas. Minha amiga, ainda jovem, não suportaria viver em uma cadeira de rodas, usando fraldas.  Seus três filhos a abraçavam, sem conter o pranto, e ela os confortava. Três lindos rapazes, que expunham a dor sem constrangimento. Durante todo o tempo ela permaneceu assim e disse palavras sábias ao fim do cerimonial realizado. Agradeceu, pelo nome, a todos que ali estavam, e se referiu, também, aos que, embora ausentes, já lhe haviam demonstrado seu carinho.  A imagem daquela mãe, tão forte, envolvendo seus garotos com elásticos braços, era comovente. Sua aceitação não significava insensibilidade, mas amor.
Sim, há espíritos evoluídos, que nos mostram um jeito de agir/pensar diferente, frente a tragédias e perdas. Para ela, a partida de minha amiga foi um presente de Deus, para lhe evitar sofrimento. Não colocou em relevância a sua dor, que é certa, mas aquela que sua mãe sentiria, por ser mulher independente e forte, tendo que  sobreviver, tão somente, quando gostava de plenamente viver.

Estamos desoladas com mais essa despedida, mas alimentamos a certeza de que seu espírito está sendo amparado, assim como o da filha querida que ficou, para terminar sua missão.


                                                  Marilene



23 comentários:

  1. Cara Marilene

    Não consegui deixar o meu comentário.
    Vou tentar de novo.
    Bj

    Olinda

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  2. Causam imensa dor, as perdas que nos acometem no decorrer da vida. Precisamos arrebanhar forças, junto aos familiares e amigos para aceitar os "desígnios" e prosseguir o caminho restante da nossa vida. Sinto muito, Marilene, pelo que narrou. Meu abraço, querida...

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  3. Minha amiga, bom dia
    Resolvi escrever o meu comentário numa folha word e depois inseri-lo no devido espaço, pois não tenho conseguido publicá-lo.
    Muito obrigada por partilhar connosco esses momentos, esses sentimentos de amizade que aconchegam o coração e que servem de esteio quando a vida nos mostra a sua face mais difícil.
    Admiro a sua amiga, que se supera a si própria e ao seu sofrimento, amparando e consolando os amigos, os familiares. Ela pertence ao grupo de pessoas com o espírito evoluído, como bem diz, espírito de luz que se eleva e consegue dar-se aos outros. E a Marilene, ao trazer-nos este
    texto e este testemunho, dá-nos o exemplo de como se pode superar uma perda enorme como é a da nossa mãe e olhar para os outros com abnegação, trazendo palavras de consolo
    e compreensão.
    Bem haja!
    Bjs

    Olinda

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  4. Que tristeza mais uma perda! E há realmente pessoas fortes ,sabem enfrentar tudo isso,ainda bem! Que fiquem todos bem! bjs,chica

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  5. Olá,|Marilene. Que bom que você mudou de ideia e decidiu publicar este belo texto!
    Acho que a força de quem perde vem da fé. Às vezes, da capacidade de resiliência. Mas acho que só posso falar da minha... você sabe que perdi minha mãe há um ano, meu sobrinho há três anos, meu sogro há tres anos e meio, meus dois cães num período de dois anos de diferença, enfim, passei por muitas perdas recentemente. De onde vem a minha força? Não sei. Acho que dos sonhos que tenho, que para mim, são muito significativos. Um dia criarei coragem e escreverei sobre eles. Se ainda não o fiz é porque me faltam palavras, e também porque muitos não compreenderão e poderão usar estas coisas contra mim.
    Sei da perda recente de sua mãe, e posso dizer o quanto e a compreendo...

    abraços!

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  6. Acredita Marilene, li todo o conteúdo do teu texto, emocionado e lágrimas teimosas ao canto dos olhos. Normalmente não choro os falecidos, mesmos os muito próximos. No caso, sem queres adoto é uma postura muito rígida. Talvez por saber que ninguém deixa de trilhar esse caminho. Mas quem cá fica a lamentar as perdas? Meu Deus?
    Beijos

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  7. A força para lidar e conseguir falar sobre as perdas tem sempre a ver com as concepções pessoais perante a vida e a morte. Dói a todos, mas a aceitação é feita de forma muito diferente.
    Para quem acredita em Deus e numa vida para além da morte, será talvez mais "fácil" aceitar a morte de um ente querido.
    Quando a minha mãe faleceu eu tinha na altura 21 anos, e a minha mãe 43 anos, vítima de cancro. As idas ao hospital eram muito desgastantes emocionalmente, mas de certa forma foram servindo de preparação para o que estava para vir. No dia da morte, depois do choque inicial (parece que havia em mim sempre a negação da situação), fiquei muito serena e acho que essa serenidade tinha a ver com o sofrimento que ela passou, e por outro lado a minha imã mais nova precisava que alguém estivesse sereno. Era a hora de tudo acabar.
    Mais tarde veio contudo a revolta por ter partido tão cedo e não ter chegado a viver a vida a que tinha direito.
    Para essa mãe com 3 filhos em pranto, ela sabe que ajudamos mais os outros quando aceitamos as situações de dor (chora-se para dentro), do que quando nos revoltamos contra as situações. E o facto de encarar a morte como "presente de Deus", ajuda muito.
    Uma crónica comovente, hoje, Marilene, que me deixou o olhar mais húmido...:-)
    xx

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  8. Oi mana,

    Difícil não se emocionar diante dessa sua crônica, assim como foi difícil conter a emoção durante o cerimonial de despedida da minha cunhada e amiga. Hoje, pela manhã, ao lembrar da cena daqueles três irmãos chorando e abraçados, numa corrente de amor, não pude conter as lágrimas. A Márcia mostrou-se forte, com certeza, já que como filha única coordenou tudo com coragem e ainda dando força aos filhos, que amavam a avó falecida. Creio que ela estava muito bem amparada pelos amigos espirituais e pelo Pai Maior. Espero que ela continue forte e que sua dor seja suavizada pelo consolo de que sua mãe não teria forças para viver em estado de permanente dependência, caso tivesse sobrevivido à cirurgia.
    Certo é que estou profundamente desolada por mais essa perda em tão pouco tempo e com o coração dolorido por sentir a dor do meu marido.

    Beijo.

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  9. Olá Marilene,
    Algumas pessoas nos surpreendem...
    Também presenciei algo semelhante há uma semana atrás.
    Meu pai velando uma filha e ainda tendo forças para consolar eu, minha outra irmã,
    o restante da família e inúmeros amigos.
    Tem gente que é forte demais.

    P.S.: Muito obrigada por suas palavras de carinho e apoio.
    A dor da perda nos deixa frágeis, mas Deus nos fortalece.
    Bjs

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  10. Marilene, =voltei pra te agradecer o carinho lá no domingueiro... Já te linkei lá!! bjs,chica

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  11. Nossa...como essa moça foi forte. Sinceramente não sei se conseguiria, perdas abalam muito...é óbvio. Espíritos evoluídos eu admiro de alma e coração porque conseguem nos passar grandes ensinamentos. Sinto muito pela partida da sua mãe e também de sua amiga. Espero que Deus esteja consolando seu coração. Sei que deve ser ruim ficar relembrando esses fatos para escrever aqui no blog, mas lhe agradeço por compartilhar essa fascinante história conosco. Tenho certeza que dará forças para muitas outras pessoas que passam por situação semelhante.
    Beijos!
    Monólogo de Julieta

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  12. Amiga Marilene, fizeste bem publicar o post, pois certamente o desabafo (ato de escrever) trouxe-te alívio.
    Pois é, nestes momentos extremamente dolorosos, em consequência das perdas dos entes queridos, as reações dos atingidos podem variar conforme a capacidade de assimilação em decorrência do nível evolutivo de cada indivíduo. Esta mãe, certamente é um espírito adiantado, que já passou por muitas existências, daí sua conduta diferenciada no momento em que os demais estavam desesperados.
    Um abração. Tenhas um dia de paz.

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  13. Olá, querida Marilene
    Sabe, foi muito bom ler o seu post pois estou com minha tia numa situação similar... numa cadeira de rodas, acorda, mesmo com a fralda, encharcada... sem cabelos (pela químio) e sentindo-se um lixo mesmo com cuidados especiais...
    Não queremos que se vá... mas o seu post me fez pensar...
    Não consigo pedir a Deus que a leve para que pare de sofrer... pois sei que ela quer viver mais...
    Meu Deus, que situação delicada!!!
    Mas, enfim, desculpe-me de ter saído do tema... é que veio de encontro a um realidade minha familiar...
    Quando o meu pai amado se foi, fui extremamente consolada por Deus e dei força a todos também... A Força vem do Alto, amiga...
    Bjm fraterno de paz e bem

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  14. "E os mansos herdarão a terra..."
    São essas pessoas iluminadas que nos confortam, como se possuíssem uma missão na terra. As perdas, o luto nos abatem o ânimo, mas esses seres, feitos para o amor, sempre se aproximam de nós nesses momentos de dor. Beijos, Marilene!

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  15. Boa note Marilene. a vida é assim , sempre nos surpreendendo quer pelos que partem deixando um vazio , quer por aqueles que ficam e nos surpreendem com sua coragem e determinação . Sua facilidade em assimilar esses acontecimentos, aceitando-os como vontade Divina nrealmente é incrível. Bjs. São iluminados , nascidos para clarear o caminho de outros. Bjs . Que Deus ilumine dê forças aos familiares e amigos. Abcs.

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  16. Estas perdas são terríveis, só Deus mesmo para nos dar forças para suportar, sinto muito querida Marilene por mais esta perda.
    Grande beijo no coração e fique sempre com Deus no coração.

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  17. Boa tarde Marilene, a vida é uma eterna transformação, uns nascem outros morrem, o que devemos aprender a sermos mehores todos os dias... bjks que sua semana seja iluminada.

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  18. Grata por esta partilha/reflexão. De facto há pessoas com este espírito. No meio da dor, reagem não pensando em si mas na situação de sofrimento que teria esse ente querido. Sei que consigo ter esta atitude mas depende da perda e, sobretudo, de como aconteceu. O processo de aceitação é sempre um caminho difícil.
    Bjo, querida Marilene e força para enfrentar situações dolorosas.

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  19. Oi, Marilene, que coisa! Duas perdas seguidas!!! Todos os dias agadeço a Deus a bênção de ter as pessoas qoue amo vivas e bem, porque esse é o momento mais doloroso para o ser humano na minha opinião, o de ver alguém querido partir.
    Considro admirável pessoas que conservam essa força que abraça e carrega quem chega. Que o inesperado a surpreenda positivamente nos próximos dias para aliviar seu coração.
    Um abraço!

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  20. Oi, Marilene!
    Compreendo a reação da filha da sua amiga, pois tive a mesma quando a minha mãe faleceu. Fiquei com ela enquanto estava em coma e vi todo o sofrimento que estava passando, além da última cirurgia que foi fatal, onde o médico nos alertou sobre a falta de qualidade de vida que viria a seguir. Minha mãe sempre foi muito independente e eu fiquei pensando em como ela iria se sentir com a nova realidade em sua vida. Quando o médico veio nos dizer da sua morte, achei que Deus tomou a melhor decisão. Minha mãe se tornaria infeliz em seus últimos anos de vida.
    Na maioria das vezes, as pessoas choram porque antecipam uma saudade, pensam em como será a vida sem aquela pessoa e a tristeza se instala. Procurei não pensar nisso e apenas pedir à Deus que desse um bom lugar para a alma de minha mãe.
    Vou lhe dizer algo mais, me desculpe o comentário enorme. Não sei de onde tirei tanta força pois sempre tive muito medo da minha mãe morrer, desde os meus 4 anos quando perdi meu pai. Mas Deus fez tudo certinho. Ele me fez ficar do lado dela em seu momento mais difícil para compreender que o seu ciclo estava no fim. Agora penso em meu filho e como será para ele quando eu vir a faltar... A morte sempre nos deixará inquietos, mas temos que nos conformar, pois como diz o poeta: morremos um pouco a cada dia, desde o dia em que nascemos.
    Não fiquei triste, pense que foi melhor assim!
    Beijus,

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  21. Nossa, Marilene, duas perdas tão próximas. Que difícil. E sei como é, mas no meu caso, com meu pai, foi de forma súbita. Ele nunca teve problema de saúde e do nada sofreu um infarto fulminante na minha frente. Não tive 'tempo pra me preparar' com ele internado ou algo do tipo, aconteceu a acabou. Uma porrada. E é preciso mesmo ter essa gente evoluída pra nos ajudar, mas ainda assim é mt difícil. Bjs e bom domingo.

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  22. Querida Marilene,

    Existem pessoas que tem uma luminosidade especial,um sentir acompanhado de uma sabedoria na
    aceitação e entendimento muito mais amplo sobre os mistérios da vida-morte. Cada um tem o seu
    ritmo de vivenciar a dor,perda e o luto deve ser vivido integral e de acordo com a singularidade de
    cada um. Para mim,o choro não é sinal de fragilidade,mas de sensibilidade e aqueles que
    aparentemente não choram,por dentro ficam o caminho da tristeza e introspecção sofrida (silenciosa).
    Porém é muito belo,aquele que tem uma generosidade de minimizar o sofrimento da sua perda,
    diante da libertação e bem estar do outro (ser amado).

    Sinto muito também pela perda da sua mãe, sei a dimensão dessa dor...

    Um domingo e semana luminosos refletidos na tua alma!

    Beijinhos.

    Ps: Consegui fazer o login de seguidores,voltarei sempre...

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  23. É, Marilene! Essa é uma pergunta que eu também me faço: de onde vem a força de alguns? De tanto me perguntar, estou chegando à conclusão de que só pode ser força destinada aos iluminados pelo Sagrado; aos quais Ele abençoa... E acho que não estou errado, haja visto seus comentários na postagem. Bem, de qualquer forma foram fatos lamentáveis e de dura aceitação... Assim é a vida, lamentavelmente...
    Se puder, vá me visitar.
    Beijos.

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