11 de ago de 2014

A SOLIDÃO QUE O TEMPO TRAZ

(Makoto Saito )

                                                     

O ritmo acelerado da vida, a necessidade de dedicação ao trabalho, de se alcançar independência financeira, assim como o medo e a insegurança, entre outros fatores, têm feito com que as pessoas fiquem cada vez mais isoladas, mais distantes umas das outras.  Reuniões familiares se tornam escassas e restritas ao pequeno círculo constituído por pais e filhos. E mesmo assim, quando estes não abrem, logo cedo, suas asas, e voam.
                                                                      
Há muito movimento quando somos crianças e jovens. Há uma infinidade de descobertas, de sonhos, de projetos, de encantamento. Há promessas por todos os lados e os olhos apresentam vivacidade. Todo o tempo do mundo está à nossa espera. Assim acreditamos e, quando menos esperamos, esse tempo passou. E atrás dos próprios caminhos, cada um persegue seu pessoal destino.  

Enquanto os pais preparam seus filhos, pensando em deixá-los firmes e prontos para usarem os próprios pés em suas jornadas, sequer param para pensar no tempo. Estão ocupados demais nessa tarefa e se esquecem de si mesmos. Repentinamente, eis que os giros do existir são muito rápidos, encontram-se frente a ele - o tempo, nem sempre com preparo para utilizá-lo de forma prazerosa. A velha rotina não mais se aplica e os novos dias não chegam com surpresas, senão uma ligação, um e-mail, um rápido contato à distância. Passam a se alimentar da saudade, das lembranças, da então convivência diária, ainda que ela tivesse sido difícil. Libertam os filhos e não a si mesmos, porque não apreenderam bem o sentido da necessidade de se cultivar essa liberdade ao longo da vida.
                                                       
As reuniões passam a ser agendadas, restritas a datas especiais ou férias das "crianças" (filhos não envelhecem),  e sua realização não tem similaridade com aquelas do dia a dia de outrora. Há muito para se falar e pouco se diz. Cada um leva suas preocupações e os ponteiros do relógio giram com velocidade. Mal se unem e já estão se despedindo. Isso é próprio da vida, mas inquietante para os corações dos que, de fato, já envelheceram.  Pais sofrem com a ansiedade que permeia o futuro reencontro , e filhos com a "falta de tempo" para lhes dar mais atenção.

Ainda que os pais devotem grande amor aos filhos, o que é natural e esperado de todos , tenho que não devam viver unicamente para eles. Há que possuírem interesses próprios, prazeres pessoais. Essa necessidade está presente em todas as formas de amor. Ninguém pode depender, exclusivamente, de outrem, para se sentir feliz. Da mesma forma, não podem os pais depender, exclusivamente, dos filhos. Não me refiro à dependência financeira, mas à emocional. Um dia eles se vão, como também já o fizemos. Os pais da minha geração não tinham as oportunidades que existem hoje. Limitavam-se e eram limitados em nome da família. Por mais belo que seja esse sentimento, ele não garante suficiência e bem estar na velhice, onde a solidão é mais doída. No ano só existe um dia dos pais e um dia das mães, embora, para os pais, todos os dias do ano, da vida, sejam dos filhos.


                                                          

MARIO QUINTANA, em sua sabedoria, disse sobre ENVELHECER:

" Antes, todos os caminhos iam.
   Agora, todos os caminhos vêm.
   A casa é acolhedora, os livros, poucos.
   E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas."

                                                    
                                                                   (Marilene)



27 comentários:

  1. Linda e verdadeira reflexão! O casal deve , mesmo cheio de filhos, saber estar sós e ocupar seus dias com outras coisas prazerosas e muitas vezes, gostam de estar sozinhos e curtir o silêncio que quando está cheio de gente em casa,. não acontece.

    Acredito que a maior solidão deve ser sentida quando um dos cônjuges se vai e fica o outro sozinho. Deve ser horrível. Sou vil, covarde para esse pensar. E tantas vezes quando isso acontece, o que sobrou deve saber não se intrometer na vida dos filhos, que agora tem o seu tempo de viver! bjs,chica, linda semana!

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  2. Grande e amado Quintana, amiga Marilene. Pois é, criamos os filhos para o mundo! Um abração daqui do sul do Brasil. Tenhas uma linda semana.

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  3. Olá Marilene,
    A maioria dos pais cria uma dependência emocional em relação
    aos filhos, e isso não é bom,
    pois tem filho que só lembra dos pais em datas específicas.
    Seria muito proveitoso, se os pais traçassem para eles,
    um trajeto de independência emocional...
    Bjs!

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  4. Belo texto, Marilene! Eu amo muito os meus filhos, mas confesso que sempre me preparei para essa separação que é natural com o tempo. Assim, procurei ter em mente a sábia frase do Gibran: "Vossos filhos não são vossos filhos...". Boa semana, amiga.

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  5. Verdade, mana.
    Triste a solidão daqueles que se aprisionam emocionalmente aos filhos, vendo neles a razão de seu viver. Os filhos foram criados para o mundo, por isso os pais deveriam e devem ter atividades paralelas, hobbies e
    amigos da mesma faixa etária para conversarem sobre interesses comuns. Assim, quando os filhos tivessem que sair de casa, para construírem suas vidas, eles saberiam lidar com a situação, não deixando espaço para a solidão. Lamento muito quando vejo idosos sem objetivo e dependentes da presença dos filhos e netos para preencherem seus longos dias.
    Linda e oportuna reflexão.

    Beijo.

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  6. Triste essa solidão que a humanidade está encarcerando seu ser.
    Forte e verdadeiro seu texto , um abraço querida Marilene.

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  7. Um texto muito bem gizado sobre uma realidade que se sente cada vez mais.
    A vida das pessoas não está fácil, sobretudo nas grandes cidades onde a labuta pelo trabalho e o tempo perdido no trânsito fez com que a família alargada ficasse reduzida a família nuclear, e quando acontece de os avós e tios morarem longe tudo se agudiza.
    Ser adulto não é fácil porque o trabalho e afazeres com os filhos acabam por retirar muito tempo que poderia se de convívio com o resto da família e amigos. E o tempo corre tão veloz que chegados a uma certa idade, quando os filhos se tornam eles próprios adultos, damo-nos conta que passamos demasiado tempo centrados apenas nos filhos e que nos esquecemos um pouco de nós. Eu senti um pouco isso; o marido e a filha sempre em primeiro lugar, embora hoje já pense muito mais em mim, exactamente porque a minha filha me exigiu isso. Ela ainda vive connosco mas passa férias no estrangeiro, é muito autónoma, o que me permite também ser autónoma, dado que somos emocionalmente muito independentes.
    Uma bela reflexão, Marilene, e que bom ter-te de volta!
    xx

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. A amizade é magia sem fronteiras
    que nos une tantas amizades tantos amores,
    num lugar infinito e silencioso,
    palavras, email trocados ,gestos de carinho
    promessa de amizades e de amores eternos.
    Quantas vezes sorrimos ,quantas vezes choramos,
    outras quase morremos de saudades
    sem nunca termos trocado um único olhar.
    Beijos no seu coração.
    Evanir.

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  10. Oi, Marilene!
    Desde que o mundo é mundo conta-se da ingratidão dos filhos e da alegria que eles também dão aos pais. Acredito que a forma como fomos criados interfira no modo como tratamos os nossos pais e se amor gera amor, carinho gera amizade... quem não procurou ser amigo a vida toda, não haverá de ter um amigo somente quando achar conveniente.
    Foi muito bom refletir por aqui!!
    Amo Quintana!!
    Beijus,

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  11. OI QUERIDA
    Muito bonito esse texto. Mias bem triste como é esse outro lado da vida.Andei afastada devido uns problemas de saúde que me apareceu mais estou melhorando aos poucos. E voltando para visitar as amigas. Feliz por esta aqui de novo. Um beijnho.

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  12. Mari,
    tuas precisas considerações levantam a poeira destas questões que são bem mais corriqueiras do que precisariam, na verdade.Vivo esta realidade, mas continuo envolvida em meus gostos e atividades procurando não ficar no fim da fila de prioridades.Ás vezes, ainda declino, mas só às vezes :)
    É sempre importante refletir-se em parceria.Valeu!
    Mil bjkas,
    Calu

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  13. OLá Marilene, que bom refletir sobre o assunto deste belo texto que vc discorreu tão bem Chamou-me a atenção o final:"No ano só existe um dia dos pais e um dia das mães, embora, para os pais, todos os dias do ano, da vida, sejam dos filhos." É o que sempre digo em alguns textos meus e pensava a cada dia enqto massageava delicadamente as pernas de minha mãe, tão sensível pelos anos . Enqto mASSAGEAVA LENTAMENTE COM ÓLEO DE GIRASSOL EU PENSAVA: SERÁ QUE ALGUM DIA TEREI ALGUEM PARA FAZER ESSE CARINHO EM MIM? aLGUEM ME TRATARÁ ASSIM COM ESSE CARINHO? bEM, MAS NÃO LAMENTO, FIZ O QUE PUDE, DEI-LHE O CONFORTO QUE PRECISAVA NÃO POR OBRIGAÇÃO.MAS POR AMOR. E sou grata a Deus por ter-me dado essa oportunidade de estar ali a seu lado dia a dia, até o final de seus dias. Bjs.

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  14. Bello texto, es cierto, nadie puede depender unicamente de los demas para ser feliz.

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  15. Sei que tu ainda está lambendo tuas feridas minha amiga e eu agora também Lambendo ainda as feridas pela passagem do meu paizinho venho te convidar para votação da final do 9º Pena de Ouro... A vida continua e o tempo não para, por isso decidi reativar o concurso/brincadeira, que foi interrompido, quando papai quis ir fazer uma festa no céu. Então venha brincar comigo e os blogueiros que heroicamente não deixam a blogosfera fenecer. Um enorme beijo no coração.

    http://ostra-da-poesia-as-perolas.blogspot.com.br/

    Desculpe passar tão rápido pela tua casa e nem sentar e saborear teu post... O tempo urge e tirei o dia para convidar a blogosfera, depois volto com calma e te afago.

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  16. Este comentário foi removido pelo autor.

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  17. Olá, Marilene, como vai? Essa reflexão é muito próxima da realidade. Um dia fomos filhos e quisemos fazer nossos voos, é natural que os filhos o queiram fazer também. Eduquei minha filha sempre com essa consciência de que um dia ela deverá seguir seu caminho e mais que isso, tentei prepará-la pra se virar. Ao mesmo temoo nunca deixei de cultivar meu espaço e meus sonhos, que pretendo dividir com quem amo. Ajudo meus pais no que posso e desejo que minha filha me ajude se eu precisar, mas que isso seja natural, sem cobranças. Um abraço!

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  18. Impecável reflexão, Marilene. E o final do texto resume tudo: só tem um dia dos pais e um dia das mães, mas para os pais todos os dias são dias dos filhos. E o pequeno poema complementou tudo. Bjs e boa semana.

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  19. Querida amiga bom dia hoje vim só para lhe desejar uma linda semana para você!
    abraço amigo!
    Maria Alice

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  20. A solidão que o tempo traz.

    O título é o texto!!!

    Nada a acrescentar e parabéns.

    Um abração carioca.

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  21. Aguardo o próximo post, amiga. Boa semana, fica bem!

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  22. Olá, querida Marilene
    A síndrome do ninho vazio quer tomar conta de todos na melhor idade mas a gente pode dar uma guinada se dedicando ao que gosta... é o que tenho feito e os dias se tornam leves...
    Mas tem dia que bate uma nostalgia tremenda aí é caminhar mais, sair, se dedicar ao semelhante, natureza e atividades... nada de isolamento sem criatividade para mim... Tem dado certo quando a saudade vem de jeito querendo me pegar... rs...
    Bjm fraterno de paz e bem

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  23. Marilene, vejo muitos pais vivendo essa solidão desenfreada e o esquecimento dos filhos. Não sei qual será meu futuro como filha e tão pouco o meu como mãe, mas farei de tudo para não ficar longe daqueles que amo. É triste ver que alguns filhos se afastam dos pais por tão pouco e acham que nunca irá lhes acontecer o mesmo. Como dizem...só dói quando é na nossa própria pele.
    Beijos!
    Monólogo de Julieta

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  24. Excelente. Subscrevo, sobretudo a última parte.
    Bjo na tua alma, Marilene

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  25. Olá, Marilene, boa noite.

    Mesmo com esta correria do tempo, encontrei tempo, para passar aqui e desejar-te, uma noite maravilhosa de Sexta Feira.
    Se quisermos, tudo pode-se, realizar
    Abraços

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  26. Magnífico texto, Marilene, muita sabedoria e clareza com que você expõe o tema. E fechou o último parágrafo com chave de diamante!! Penso igualzinho!!!
    Parabéns pelo seu raciocínio, muito próprio de você.
    Beijão.

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