22 de set de 2011

O DESCONECTADO


                                               

Ninguém saberia dizer quando ele se desconectou da vida e do mundo. Estavam todos tão envolvidos com seus próprios interesses e atividades que sequer percebiam sua presença. Ele caminhava pela casa, com dificuldade, já meio curvado e sem distinguir bem as cores das cortinas, os objetos de decoração, as roupas que os netos vestiam. Costumava ouvir o filho e a nora reclamando de comprimento da saia da menina, de desleixo por parte do jovem, mas esses detalhes, para ele, não tinham qualquer importância.

Às vezes, sozinho no quarto, lembrava de sua juventude, de seus sonhos, de seus ideais. Da esposa, companheira e amiga, com quem se casara aos dezoito anos e que há dois o abandonara. Era assim que via sua partida. Um abandono que Deus a obrigou a praticar.  E deixava rolarem as lágrimas, às escondidas, quando a saudade o sufocava. Não queria estar ali, incomodando, perguntando onde deixara seus objetos, esquecendo-se da forma de ligar o chuveiro, ouvindo reclamações.


                                                     

Ninguém o queria escutar, dividir um momento, pedir um conselho ou permitir que recontasse algum fato de sua vida. Todos estavam ocupados e apressados. Menos ele.
Gostava da vida. Amava o filho e sua família. Mas lamentava ter-se tornado invisível. Assim, andava pela casa, em silêncio. Ficava no jardim, sentindo o perfume das flores, por longo tempo. Com elas conversava. Eram boas ouvintes. Dizia-lhes que o consideravam inútil, que não percebiam seus sentimentos, que para nada o consultavam, que o haviam desligado como se fosse um brinquedo desinteressante.

Sabia que vivera intensamente, que muito amara e que guardava preciosas lembranças. Talvez, pensava, se tirassem sua tampa, pudessem ver que ainda era uma caixinha cheia de surpresas. Mas sabia , também, que não o fariam porque, tolamente, o consideravam desconectado do mundo.



                                           
Como é triste envelhecer, dizia às flores! Vocês têm existência curta, e só vivem sua beleza encantadora. Quando murcham, já caem, dando lugar a outras, para que o jardim permaneça sempre belo. Aliás, pensava ele, cuidavam mais do jardim do que dele.

E  dedicavam muito tempo àquelas máquinas que falavam. Companheiras inseparáveis dos netos que, ao ouvir uma pergunta, se limitavam a dizer: você não entende disso, não é da sua época.
E não era mesmo. Na sua época, as pessoas se reuniam para as refeições, conversavam, riam e brincavam. Dividiam suas experiências diárias. Estavam sempre conectadas umas com as outras e com a própria vida. E agora, ele que tinha tanto a dizer, tornara-se invisível. E entre todos, ainda era único considerado desconetado.



Imagens tiradas da internet . Se, inadvetidamente, estiver ferindo direitos, gentileza comunicar, para imediata correção.

18 comentários:

  1. Se eu notar que não vou ter companhia daqui a uns anos eu vou montar uma república de velhos (nos mesmos moldes das que vivi em época de estudante). Uns ajudando os outros, não tornando-me dependente nem um estorvo de ninguém. Esta geração mais nova não vai aturar velhos nem sendo pagos . A cda manifestação que vejo dos mais jovens com os mais velhos mais eu me certifico desta decisão. Abraços, Marilene. Paz e bem.

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  2. Isso nos leva a refletir um tema sério na nossa sociedade. Penso nos meus velhinhos, na minha mae amanhã... em mim, meus irmãos... como estaremos nós quando o tempo da velhice chegar? quando o corpo padecer? quando so nos restarem lembranças...

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  3. Amiga ,não são apenas os velhos q/ estão isolados;nós tb.Temos centenas de amigos virtuais,mas,n/ conhecemos os nossos vizinhos.O ser humano desapareceu detrás da máquina.Acho q/ falta poucio p/ q/ a tão decantada solidariedade humana vire um mito virtual. bjks

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  4. É verdade, as pessoas depois que entraram num mundo informatizado que se diz globalizado, onde era pra aproximar pessoas, cada dia ficam mais longe das outras, e o desconectado se torna sempre sozinho por que ninguém tem tempo mais pra sentar e bater papo e tomar um café, sentar junto, falar da vida, sem pressa. rs
    E nós tb, vamos nos isolando dentro de 4 paredes.
    Pra falar a verdade antes eu era mais sociável, saia mais, agora , afff...
    coisas que precisam mudar mesmo, Onde vamos parar desse jeito? desconhecidos na mesma casa. rs
    Beijos kerida bela abordagem, gosto demais dos seus posts.
    Você é ótima!
    Boa semana pra ti Marilene!

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  5. Mari querida, acho que o maior problema do ser humano é achar que pq ficamos mais velhos deixamos de ser gente. Cada idade tem sua beleza, suas novidades. Tem seu lado bom e ruim. Na minha opinião, as pessoas tratam algumas pessoas mais velhas mal por medo da velhice, medo de encará-la mesmo que seja no outro.

    Lya Luft sobre a velhice: "A chegada da velhice não precisa enferrujar a alma, sendo inevitável ela devia ser guardada e recebida como uma amiga há muito anunciada. Ela vem aos poucos, vem mansa. (...) O espírito é mais importante que as rugas, manchas, andar lento e corpo encolhido. (...) um espírito próprio de cada idade, aberto e gentil."

    Vc é brilhante em tudo o que escreve!!! bjokitas mil no seu coração.

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  6. Olá MANA,
    Hoje em dia os idosos realmente se tornam invisíveis dentro da própria casa. Não têm voz.
    Os filhos não consideram mais relevante suas opiniões e os netos "estão em outra".
    Todos esquecemos que "somos eles amanhã" e que provavelmente receberemos na mesma moeda.
    Particularmente, não quero incomodar ninguém na minha velhice, por isso vou ter que planejar alguma coisa (rsrsrsrsrs).
    Beijos.

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  7. Marilene

    A velhice traz destes problemas! Porém, só se velho quando envelhece a mente. Demos ter sempre na devida conta a idade das pessoas e, ajudando-as, em caso disso, e colhendo ensinamentos. Por vezes, pomo-nos a meditar: se nos tempos modernos do hoje, não teremos necessidade de rever o passado, em muitos aspectos?
    Como já atravessei várias épocas, permito-me mesmo meditar neste aspecto importante.
    É que a globalização, precisa reciclar-se já, e as pessoas mais velhas podem ajudar a aconselhar como.
    Beijos

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  8. Lindo o teu texto,Marilene!Nos emociona e nos faz pensar no quanto podemos ser egoístas com os nossos idosos,e na possibilidade de ficarmos velhos e vivermos como enjeitados e "desconectados" como vc citou muito bem pela nossa própria família.Só tem uma maneira de reverter esse momento que, talvez todos nós vá viver um dia,é procurar se inteirar sempre com nossos familiares e amigos,e nos modernizarmos com toda essa tecnologia que está aí,ou viveremos do passado,realmente.
    Bom fds,querida,bjka

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. QUERIDA
    MARLENE
    HOJE OS IDOSOS NÃO SÃO MAIS RESPEITADOS. AS PESSOAS ESQUECE QUE UM DIA A IDADE TBM VAI IDADE CHEGAR. MARAVILHOSO TEXTO. VC COMO SEMPRE COM SUA SABEDORIA. FELIZ FIM DE SEMANA . BJ NO TEU CORAÇÃO.
    BRISA

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  11. Nossa, que texto lindo!
    Que medo.
    Perder um companheira de décadas e tornar-se invisível...
    Acho que vou solicitar um vaga no albergue do Cacá...
    Confesso que eu tenho medo de envelhecer, nada haver com as rugas do espelho, a saúde do espírito e do corpo que me apavoram...

    Bjoo, amei!

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  12. Querida Marilene
    Como é verdadeira sua reflexão!
    Felizmente não acontece com todos, mas muitos velhos são postos de lado como trapos que para nada servem. E ninguém parece perceber o seu sofrimento...
    É muito triste ficar-se nessa situação.

    Mas... a Primevera chegou, e o que desejo é que ela, além das flores, lhe traga uma chuva de benções.

    Bom fim de semana. Beijinhos

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  13. Tocante as suas palavras. Por cá, diz-se que: “Velhos são os trapos… Às vezes, as paginas mais belas de um livro encontram-se no fim…… Bjs.

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  14. Seu texto é perfeito. Trás uma importante reflexão a ser feita por todos nós, que um dia vamos envelhecer, os que ainda não envelheceram. A sabedoria dos anos e anos de vida, se tornaram aprendizado, que num país mais serio, seria um grande legado aproveitado pelos mais jovens. Um beijo no seu coração.

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  15. MArilene
    este texto é deveras "pesado" de sentimentalismo.
    é difícil ser velho , junto dos novos. são tidos como uns imbecis que só atrapalham.
    adorei o texto porque ainda há bem pouco tempo tive uma idosa a viver comigo:Faleceu há um mês por isso o teu texto ainda me sentimentaliza.
    kis :=(

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  16. Há idosos que são pura e simplesmente abandonados, ainda que no seio da família.
    Muitos deles, por isso, entram em depressão e até morrem disso.
    Excelente texto, minha querida amiga.
    Beijos.

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  17. Belíssimo!
    Triste solidão em um mundo que procura no escro a luz que apaga entre o descaso da convivência humana.
    Beijos, boanoite e feliz semana Marilene!!

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